Um belo objetivo

Um belo objetivo

Em minha vida, sempre andei ávido em ser o sal da terra. Ou seja, ser discreto e essencial como o tempero. Mas confesso, olhando para os noticiários e a conversa das pessoas, tudo parece meio insossa. Fico aqui feito um garimpeiro em busca de uma pepita. Uma mísera pedra preciosa que me faça as pessoas exporem ao menos um dos caninos. Um sorriso assim meio de esguelha. não é tarefa fácil! Copa superfaturada, falcatruas, saúde precária, educação de dar dó. Nem vou falar do lepo lepo, piradinha e o tal e funk ostentação. Ave Maria, Crê em Deus pai! Saravá! Uma boa dica é ouvir uma boa música no lugar de se contaminar com esse ambiente turvo. No meu caso, ouço os meus finados amigos. E por falar em amigo, e graças a Deus, vivinho da Silva, só mesmo o meu irmão Sérgio Rosa da Silva pra me motivar a escrever essas mal traçadas linhas.

Dias desse, vi uma imagem que me fez sorrir com prazer e ativar as glândulas lacrimais. Pois bem, vamos aos fatos. Serginho, assim como eu, é apaixonado pela natureza. Tá bom, talvez eu seja apaixonado por natureza, também por sua influência. Confesso que nessa minha jornada tentei copiá-lo em muitos outros aspectos. A história é a seguinte:

Há uns doze anos, numa de suas viagens a Araxá/MG, ele estava saboreando uma bela prosa, regada a uma cerveja geladinha, e como diria o Mestre Chico, afinal sem um carinho, uma alegre conversa e uma bebida, ninguém segura esse rojão. Quando surge imponente, dono do pedaço, um lindo tucano pousando no coqueiro como que querendo fazer parte da conversa. O pé estava carregado de frutos e o danado veio se fartar. Para o morador, a cena era natural, o tucano já era quase um membro da família, mas para um paulista, que vive cercado da selva de pedras, não é nada comum. Serginho, maravilhado, ficou ali, estático, observando o bicho cortar o fruto com o bico afiado. Não tinha uma câmara fotográfica nem celular para registrar a cena. Lembrando que há doze anos, não tinha essa febre de se registrar tudo com o celular, nem o tal Tucano era narcisista para fazer uma selfie. Aliás, nem todas as cidades tinham sinal, quanto mais celular que fotografasse com boa resolução. Portanto, a imagem ficou gravada apenas na memória do Serginho. Pois bem, é justamente nesse instante que pra mim a história passa a ser interessante. Meu irmão estava construindo a sua bela casa em Sorocaba, o seu paraíso particular. Ele, apesar de corinthiano, abriu uma exceção e já imaginando uma bela palmeira no fundo do quintal de sua casa, decide colher alguns frutos, que também são sementes, e assim, numa das idas a obra, escolhe um local estratégico para plantar a semente. Cuidou dela, assim como o fez com seus belos filhos. Com amor e zelo, viu a semente germinar. E não é que a danada da Palmeira também é de copiar e se espelhou no caráter do meu irmão. Cresceu e tornou-se uma bela árvore. Perfeitamente reta. Dez anos se passaram, muitas regas, podas e fertilizantes 10 10 10 eis que a Palmeira libera seus primeiros frutos. Era igual à imagem guardada na memória. Só faltava o tucano. Esqueceu-se de avisá-lo. Mas persistente Serginho falava com seus botões: “Quem sabe o vento de maio pudesse informar o Tucano mineiro que agora tinha uma filial em São Paulo”. Uma coisa é certa: Quem tem um belo objetivo na vida, não se apoquenta com o tempo, nem com as dificuldades e intempéries. Outra safra e nada. Eis que uma bela manhã, assim como tantas outras, abrindo a porta balcão de sua varanda, de frente para a bela e farta palmeira, o danado do Tucano surgiu, mineiramente. Imagino a alegria e o belo sorriso do meu irmão ao ver o seu objetivo realizado. Saber que agora, com um celular de prontidão, pôde registrar a imagem que insistia em ocupar espaço na memória.

Na minha vida, conheci muitas pessoas que ocupadas em alcançar objetivos inúteis ou fúteis, normalmente atrelados a questões materiais, nunca puderam sentir o mesmo prazer do Serginho.  Não sei se já disse, mas o que me encanta são os belos objetivos que não se pode comprar. Por isso, quando eu crescer, quero continuar a copiar descaradamente os exemplos de um dos meus irmãos mais velho. Serginho, doze anos passam voando, têm umas sementes aí?

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