Povo marcado, povo infeliz

Povo marcado, povo infeliz

Ando meio desligado e nem sinto os meus pés no chão, mas tentam a todo custo me contaminar cortando as minhas asas para não poder flutuar. Ou como diria Raulzito, que nada mais é coerente, se virar de trás pra frente, tanto fez como tanto faz!

Não sei se falta poesia, inspiração, criatividade, mas parafraseando um certo ninguém, que costumava dizer: “Que nunca antes na história desse país…” pois é, nunca antes na história desse país vi tantas pessoas no seu mais baixo poder energético. Como se o ponteiro estivesse colado na reserva, sem um posto de combustível por perto. Quase um exército de zumbis.

Penso que de uma forma geral, não é a escassez de dinheiro, de oportunidades ou de novos desafios que definha as pessoas, mas a falta de esperança, de compartilhar sorrisos, de contato social, de poder rir em paz. O que energiza não é o ato de clicar em “curtir” seu post da rede social, mas o toque, o abraço, o beijo, o afago no cucurute, a troca de olhar, o aperto de mão. Gestos cada vez mais raros nos tempos de hoje.
Se não bastasse essa falta de interação física, sequestraram o humor do nosso dia a dia, digo o humor inteligente, hoje o tempo que poderia ser destinado a um bom e proveitoso bate papo com os amigos é substituído por maldizer o chefe, o vizinho, o time adversário, o professor, a seleção, o Governo, (como se esses últimos fossem merecedores do tempo torrado). Estamos perdendo um tempo precioso ao tentar inutilmente rebater um comentário de um post de uma rede social qualquer e tentar a todo custo impor a nossa opinião. Estamos afoitos a colocar o nosso bedelho em qualquer assunto que em nada vai acrescentar ao valor do dólar, que, aliás, já está nas alturas.

Estamos praticamente há uma década utilizando a ferramenta “rede social” e deveríamos no mínimo ter aprendido alguma coisa. Mas noto que a sua avassaladora maioria age como se fosse algo inédito. Essa busca incessante por ser visto, ser admirado, ser comentado, ser curtido. Comparo as redes aos estertores conectados e se os retirarem o paciente morre. Cada dia uma modinha nova, colore a foto do perfil, inventa um hashtag qualquer e se eu não adiro… pronto! O sujeito logo é taxado de homo fóbico, retrógrado, criticado, já o olham de esgueira e torna-se o novo alvo de apedrejamento. Cada novo dia um novo assunto que precisa ser comentado, esmiuçado, espezinhado, e o engraçado é que essa turma não difere muito das “candinhas” que se reuniam na porta de casa para falar do alheio. Hoje o processo é mais pobre, apenas digital, antes aos menos era possível sentir o cheiro do feijão na panela e ter a interação humana enquanto afiavam a língua. E o que se dizer quando compartilham fotos e vídeos funestos, uma falta de sensibilidade e respeito que beira a psicose.

Esse novo comportamento da sociedade me faz lembrar Zé Ramalho com sua bela canção Admirável gado novo. Se ela fosse escrita nos tempos atuais, tenho certeza que seria um pouco diferente:

Vocês que fazem parte dessa massa
Que passa nos projetos do futuro
É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais do que receber
E ter que demonstrar sua coragem
À margem do que possa parecer
E ver que toda essa engrenagem
Já sente a ferrugem lhe comer
Êh, oô, vida de gado
Povo marcado
Êh, povo infeliz!

Lá fora faz um tempo confortável
A vigilância cuida do normal
Os automóveis ouvem a notícia
Os homens a publicam na rede social
E correm através da madrugada
A única velhice que chegou
Demoram-se na beira da estrada
E passam a contar o que sobrou!
Êh, oô, vida de gado
Povo marcado
Êh, povo infeliz!

O povo se acomoda na ignorância
Pois não consegue se livrar dela
Mas sonham com melhores tempos idos
Contemplam esta vida numa tela
Esperam nova possibilidade
De verem esse mundo se acabar
A arca de Noé, o dirigível,
Não voam, nem se pode flutuar
Êh, oô, vida de gado
Povo marcado
Êh, povo infeliz!

De minha parte, vou tentando me livrar dos estertores digitais, continuar meio desligado e tirando os meus pés do chão. E claro, tentando a todo custo apertar o maior número de mãos possíveis e caminhando contra o vento sem lenço e sem documento, desviando dos zumbis e tendo como trilha sonora ao fundo, o mestre Cartola, e como não podia deixar de ser, fazendo pequenos ajustes na letra: A sorrir Eu pretendo levar a vida Pois teclando Eu vi a sociedade Perdida.

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