2016

2016

E aqui estou novamente, de frente para a minha companheira tela branca, refletindo sobre o encerramento de mais um ciclo solar. Estou fazendo um esforço danado para remover do limbo da memória as cenas e fatos desse ano tão, tão, singular. Tentei encontrar um adjetivo mais específico, mas sinceramente, não me ocorreu nada melhor. O ano de 2015 descortinou festivo com os mesmos sonhos e desejos de anos anteriores, mas os dias seguintes foram tecendo caprichosamente a camisa de força, e que sem perceber, vestimos achando que é normal e tem bom caimento. Encerra fevereiro e o lampejo de alegria dá lugar à rotina, ao passo apressado, ao olhar distante que não enxerga o próximo implorando atenção. Os meses caminham velozes, chega o inverno e desejamos suprir nossas carências com quitutes, pamonhas, paçocas e um calor que normalmente não é o humano. A fogueira dos nossos ancestrais queima, e ao redor dela, deveríamos lembrar que nada aquece mais que o calor de um coração. Refletir entre um estalo e outro da brasa, que o buscamos incansavelmente, não é o dinheiro, o status ou a fama, nada disso importa, basta lembrar que mal chegamos a esse mundo e nosso primeiro ato é o choro escandaloso por um peito. Passamos nova vida inteira e a maioria das pessoas não percebem que vivemos em busca de um eterno aconchego. E como será o próximo São João sem o mestre Dominguinhos? O homem que melhor traduziu a palavra aconchego. Mas a chama finda e lá estamos nós em bando, num lampejo de cidadania invadindo as ruas e clamando por progresso, mas sem nenhuma ordem, e, a nossa bandeira estampa para quem quiser ou souber ler, que não existe progresso sem ordem. E o que seria belo vira repúdio. O Gigante adormecido vira de lado e volta ao seu sono profundo. Quem sabe embalado pela bela voz de Emílio Santiago. Também pudera, aí e covardia, até eu queria dormir o sono dos justos com esse artista tão talentoso cantando no meu ouvido. Entra à primavera, a natureza dá um espetáculo maravilhoso, tenta em vão, perfumar o ambiente das Metrópoles, mas é covardia disputar com os escapamentos dos veículos. Coitado dos Ipês, Espatódias, Patas de vacas, Subipirunas, driblando os fios de alta tensão tentando colorir a cidade, quem sabe assim arrancam um sorriso da face sisuda das pessoas, mas é pura perda de tempo. E a nossa manada só tem olhos para o próprio umbigo. E caminhamos como se fôssemos ao matadouro. Avistamos a grande reta e aceleramos ainda mais o passo, desejando que o ano termine logo, para recomeçar tudo novamente. Quem sabe no próximo aprenderemos a fazer o certo dessa vez. As ruas são adornadas, luzes piscando, a neurose das compras, a euforia de finalmente, ao menos um dia no ano, poder sentar numa mesa de bar e relaxar e celebrar a felicidade do reino encantado. Mas como? Se o nosso rei partiu. Aquele que mais cantou a mesa do bar pediu para passar a régua e decidiu apreciar os serviços dos garçons celestiais. E o ano agoniza a espera da extrema-unção. Quer dizer, ainda não acabou, sabe-se lá o que vem mais por aí nessas próximas horas. O que importa é que assim que a contagem regressiva acabar e respirarmos fundo para mais uma jornada solar, se não agirmos de maneira mais serena, com mais gentileza, mais amor ao próximo e em busca de sermos melhores, em breve, estaremos reclamando que 2016 foi um ano para se esquecer, como todos os anteriores. De minha parte, fico na torcida e rezando para que você finalmente encontre o bico do peito que tanto procura em sua vida. Que tenha muito aconchego, amor e saúde. E que daqui a exatamente um ano, todos nós possamos cantar embalado pela melodia do Mestre Dominguinhos: Ah! esse ano foi muito bom, esse ano, foi bom demais!

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