O vazio

O vazio

Como são as coisas. Incomoda muita gente ver um estádio vazio. Sou Corinthiano e confesso que pior que isso, e o que me deixa mais estarrecido, é ver que o vazio está instaurado em quase tudo ao nosso redor e de tão próximo, como se sofrêssemos de hipermetropia crônica e coletiva ninguém nota. Quer mais vazio que a vida num asilo, onde a espera da morte é a única coisa que preenche o pensamento dessas pessoas, muitas vezes largadas ao acaso pelos familiares. E o vazio de uma UTI, do coma, do descaso com os moradores de rua. E o que dizer do vazio da vida daqueles que estão fora do asilo. Crianças, jovens, senhores(as). Não há maior vazio que não ter objetivo na vida e saber o que buscar. O vazio nos relacionamentos, vazio no respeito ao próximo, vazio de moral, vazio de conteúdo intelectual. Mas há quem diga que o universo é um grande vazio, então por que se incomodar com um estádio vazio?
Desde pequeno ouvia meu mestre e pai, dizer: “Cabeça vazia é oficina do Diabo”. E o que me deixa profundamente perplexo é que o tal do Diabo, empreendedor nato, resolveu abrir franquia, e o pior, vejo suas oficinas estilo Delivery, circulando por toda parte. Haja oficina. O vazio impregnou, e se notar bem, a urna esvaziou e, consequentemente, o Congresso e Senado vivem vazios. As salas de aulas, podem até estarem cheias de alunos, mas o que importa de fato, o cérebro dessa turma está vazio e sem indícios que possa ser carregado de conteúdo. Os templos, igrejas, Praça do Vaticano podem estar lotadas de pessoas, à espera de palavras de conforto, mas no fundo, não é só hipermetropia o problema, a audição também. As palavras de nada servem, se o coração continuar vazio. Não seria preciso ouvir sermões e gritos de líderes religiosos, bastaria apenas uma frase dita em alto e bom som e o mundo estaria resolvido: Ame o próximo como a ti mesmo. Mas é duro amar alguém, como nós mesmos, se estamos vazios. Ninguém ama o vazio. Temos muitas outras coisas prioritárias a serem preenchidas, e, sinceramente, não é o estádio.
Mas por que ele incomoda tanto? Não sou filósofo, sociólogo, mas ouso dizer que o estádio vazio, mostra descaradamente o quanto ainda as pessoas precisam de subterfúgios para fugir da realidade. E não importa, se sou Corinthiano, Palmeirense, Santista, São Paulino, Flamenguista ou torcedor do Asa de Arapiraca, mas o futebol, o carnaval, a novela, o BBB, Os cinquenta tons de cinza, a fofoca da vida do famoso, do vizinho, do colega de trabalho, tudo isso é a nossa droga o alucinógeno de cada dia e nem notamos que todos nós sofremos da mesma doença congênita. Mas quando nos privam das doses homeopáticas ou cavalares do nosso vazio diário, daquilo que nos faz pensar que nos completa, da fuga diária da realidade, somos obrigados a sair do transe e lembrar que temos responsabilidades. E quem quer assumir responsabilidades? Melhor é estar foragido delas, e assim deixamos de educar os filhos, respeitar o direito do outro, ouvir mais do que falar, e principalmente, por não ter nada de mais importante a fazer, tiramos a vida de um inocente, torcedor do outro clube em um estádio lotado.
Quer saber de uma coisa, vou torcer muito, mas muito mesmo, mas para que o estádio continue vazio, nos incomodando, talvez esse efeito, seja o mesmo que vomitar depois de uma crise de ressaca ou de tanto sobrecarregar o organismo. Só depois de um belo e fragoroso vômito que o corpo se recupera e se restabelece. Que o estádio continue silencioso e vazio, quem sabe assim, possamos prestar mais atenção à nossa consciência.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *