O mundo não acabou

O mundo não acabou

Não. Ele não acabou. Para decepção de muitos infelizes que preferiam um final coletivo para não ter que expor as suas fraquezas, seu descontentamento com a vida e com as pessoas ao seu redor. Os Maias pregaram uma bela peça em todos nós. Seria um pecado o mundo se acabar justamente hoje, que o sabiá, depois de tanto esforço, terminou o seu ninho e agora soltará o canto represado em toda primavera, para formar uma nova família. Deus não haveria de permitir, que hoje, justamente hoje, no primeiro dia de verão no país mais festeiro fosse o derradeiro dia do planeta. Essa história não poderia de modo algum terminar assim, sem o: “felizes para sempre”.  Não, não seria justo acabar sem mais nem menos e não haver algum sentido para as nossas vidas. Imagina o desperdício, o mundo sem a Baía da Guanabara, sem as obras do Niemeyer, sem a pintura de Michelangelo na Capela Cistina, de que teria valido o seu esforço? Um pecado não poder ver mais o por do sol no Morro de São Paulo. Um verdadeiro desperdício, todas as obras da natureza, Niagara, Catarata do Iguaçu, Rio São Francisco, Floresta Amazônica, Monte Fuji, Catedral de Duomo em Milão, as obras de Gaudi, o Taj Mahal, seria uma grande de uma piada, tudo isso virar pó, só porque os Maias acreditavam. Pensa bem, tudo que foi escrito, Grande Sertões Veredas, Dom Casmurro, Ulisses, Guerra e Paz, Romeu e Julieta, Hamlet, Por quem os sinos dobram, Cem anos de solidão, a bíblia, as poesias, meus Deus do Céu, o mundo sem as poesias seria mesmo o fim do mundo. O que dizer do planeta sem nenhuma nota musical. De que terá valido, Mozart compor tanta obra prima, Beethoven, Bach, Strauss, Tom Jobim, Pixinguinha, Cartola. Seria uma grande sacanagem com muitos ouvidos. Não meus caros, o mundo seguirá sua lenta e evolutiva jornada inexplicável, o dia de hoje, terá exatamente os mesmos segundos de ontem e se repetirá indefinidamente por muitos e muitos milhões de anos. Para decepção de muitos veículos de comunicação, o mundo não acabou. William Bonner, com aquele seu ar sério não poderá impostar a voz e anunciar ao povo brasileiro, que o mundo acabou. Pensando bem, talvez fosse a melhor solução para nos livrarmos de uma vez por todas dos nossos homens públicos. Mas, anestesiados que estamos, não percebemos que a cada dia o mundo vai se acabando, lenta e gradativamente. Ocorre sob nossos olhos vidrados, o mundo míngua, com o desmatamento, com o abuso voraz das suas reservas, com o consumismo desmedido para saciar o prazer e o status. O mundo agoniza, quando um pai deixa de ter tempo de educar o seu filho, mais preocupado com a sua posição profissional. O mundo declina, quando um professor é agredido em sala de aula, por puro capricho e super proteção de pais imaturos. O mundo queda, quando um sujeito enche a cara de álcool, seja uma singela cerveja, um uísque ou um vinho reserva safra rara e depois pega o volante e acaba com a vida de um pai de família. O mundo torna-se moribundo, quando pais choram a morte de seus filhos depois de um atentado em Conecticut, Columbine e tantos outros. O mundo fica mais triste, quando tenho que pescar sem a companhia dos meus amigos queridos que partiram apressados. O mundo desfalece quando um ditador resolve comandar uma nação e acredita que está sendo útil. O mundo se esvai, quando um funcionário público desvia dinheiro que deveria ser da saúde, educação ou para encher a barriga e matar a sede de um povo sofrido. Os Maias tinham um pouco de razão. Talvez o dia de hoje, seja para reflexão. Olharmos para o passado e pensarmos no que já foi feito de certo e errado. Qual a trilha a que devemos seguir e qual nunca mais utilizar. Estamos tão atarefados, que não notamos que o mundo está ficando desbotado. Tanta insensibilidade. Falta de respeito ao próximo, falta de tato. Ninguém mais se beija, se abraça, nem conversa com o cidadão que senta no banco ao lado do trem ou do ônibus. Nem um mísero bom dia as pessoas são capazes de expressar. Cada um no seu mundo digital e exclusivo com fones de ouvido, ouvindo, Deus, sabe lá o que? É o fim do mundo! Como é o fim do mundo, negar trabalho para um cidadão, pai de família por não ter estudo, uma segunda língua ou por estar acima da idade adequada. Desviar o olhar e negar pão ou água para um morador de rua. É simplismente impensável, o fim dos tempos, um filho abandonar seu pai num asilo, ou a mãe descartar a cria no meio fio ao Deus dará. É o caos, um imbecil acabar com a vida de um artista à queima roupa. Privar o mundo de suas obras. Imagine, Give peace a chance ou All is need is Love. O mundo acabou naquele 8 de dezembro de 1980 e achamos normal. O mundo acaba todo dia com os traficantes de porta de escola aliciando a criançada. E repete a cena, quando uma artista com a voz linda, como Amy, morre praticamente em frente das câmaras ávidas por notícia e escancara a sua fragilidade para uma sociedade que não entende o que está acontecendo. Mas eu sou mesmo do contra, pois tenho certeza que em algum canto desse planeta, nesse exato instante um óvulo acaba de ser fecundado, e a vida é, sobretudo, esperança. E eu tenho esperança de ver minhas filhas e os seus filhos contribuindo para um mundo melhor e mais justo. O mundo não poderia acabar e eu não ter terminado o meu próximo livro. Seria a maior sacanagem de todos os tempos, a Arena do meu Timão quase pronta e o mundo acabar sem a comemoração de um gol da Fiel Torcida. Nem aquele rapaz tímido, que passou a vida toda ensaiando para pedir a garota que ama em namoro. Ou aquele senhor dançar mais uma valsa, a de bodas de ouro, com a companheira que o apoiou e o amou por toda a vida. Em algum canto desse mundo, existe um poeta rabiscando a próxima poesia ou um músico batalhando para compor um novo acorde que embalará o coração de muitos outros. O mundo não poderia acabar antes do Natal, de forma nenhuma, deixar na mão bilhões de crianças que sonham ver o papai Noel e a magia do amor de Jesus. Não definitivamente não. O mundo não haveria de findar, sem antes eu poder ver os meus alunos formados e realizando os seus sonhos. O mundo haveria de sertão tolo e ficar sem o brilho dos olhos do meu amor. Aliás, daqui a alguns minutos avistarei a lua, que me lembrará de que tenho que dizer a minha esposa o quanto a amo. E quem sabe, essa mesma lua, ao emitir sua luz, encoraja o rapaz tímido a fazer o mesmo. Talvez os Maias tivessem mesmo razão. Hoje, 21 de dezembro de 2012 seja mesmo o fim do mundo atual. E quando o relógio marcar o primeiro segundo do dia 22, em qualquer parte desse planeta, surja um novo mundo, como da música de John Lennon. Imagine que não há paraíso, é fácil se você tentar. Nenhum inferno abaixo de nós. Acima de nós apenas o céu. Imagine todas as pessoas vivendo para o hoje. Imagine não existir países. Não é difícil de fazê-lo. Nada pelo que lutar ou morrer. E nenhuma religião também. Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz. Você pode dizer que eu sou um sonhador, mas eu não sou o único, eu tenho a esperança de que um dia você se juntará a nós e o mundo será como um só. Imagine não existir posses, me pergunto se você consegue sem necessidade de ganância ou fome. Uma irmandade humana. Imagine todas as pessoas compartilhando todo o mundo. Você pode dizer que eu sou um sonhador, mas eu não sou o único. Eu tenho a esperança de que um dia você se juntará a nós e o mundo viverá como um só. Quem sabe podemos começar agora. Afinal, para nossa sorte, o mundo não acabou.

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