Oscar Niemeyer

Oscar Niemeyer

Nem bem sabia das letras, desse tal de abcd, meus ouvidos já estavam acostumados e bastante confortáveis ao som da palavra Niemeyer. Meu pai um comunista convicto, daqueles que só desejava a igualdade, a justiça e oportunidades para a sociedade, exaltava o arquiteto, falando de suas proezas, das suas invenções e daquilo que tinha de subliminar em suas obras. Brasília só foi aprovada pelo crivo do Mestre Lula, (meu pai) quando foi erguido o Memorial JK e na sombra, em determinada hora do dia, formava-se no chão a imagem da foice e martelo. E não haveria ninguém no mundo com coragem suficiente para por abaixo a obra. Meu velho ria e se ria com o feito do Oscar.

Cresci rabiscando alguns desenhos de uma possível reforma da velha e apertada casa em que residíamos. Pai e mãe, mais 7 filhos. No meu mundo imaginário, talvez inspirado pelas conquistas e o reconhecimento de Oscar, construía com o grafite numa folha de caderno, um quarto exclusivo, outros tantos para acomodar os irmãos, uma cozinha mais arejada para as alquimias gastronômicas de minha mãe e um banheiro com válvula hidra. Nada mais era necessário.

Olhando para trás, vejo que a vida me brindou com a incrível possibilidade de trilhar o mesmo caminho de Oscar. Primeiro emprego e estava numa empresa de engenharia, como Office boy. Era um estágio importante para apreciar os prédios, formas, usabilidade das construções. Um ano após a assinatura da carteira de trabalho, já ganhei como prêmio, o direito de pilotar uma prancheta, como a da foto acima tirada pelo meu querido e mestre Tio Ari. E fui Oscar Niemeyer por 8 anos. Acho que cada desenho, orientado por Mestres, Aris, Gerardos e tantos outros que me ensinaram os segredos das linhas, ângulos e cálculos, eu me sentia no escritório do Oscar, trabalhando para ele, e o melhor da história, podendo colocar um sorriso na boca vazia do meu pai, dizendo que estava seguindo a mesma trilha do arquiteto comunista e que ainda daria muito orgulho ao meu velho. Como trabalhava numa empresa de engenharia, acabei sendo conduzido ao curso de engenharia na faculdade.

Os anos passam, a vida dá um drible, o destino faz com que tenhamos que escolher novos caminhos. Tranquei a matrícula, fui fazer comunicação. Agora distante das pranchetas, sem o meu velho para ver os meus projetos imaginários, vou criando as histórias e escrevendo poesias e livros e tralhando com consultoria de marketing, criando projetos, agora estratégicos. De um tempo para cá, voltei à faculdade, como professor e a cada aula, cada livro, cada projeto, de alguma maneira eu me lembro do Velho Oscar e de quebra do sorriso vazio, mas de uma beleza ímpar do meu pai. Se a aula foi boa, foi uma aula digna de Oscar. Se o livro ou a poesia saiu do jeito que eu gostaria ou ao menos um parágrafo ficou bom, é padrão Oscar. Se o projeto estratégico foi um sucesso, é porque foi feito nos moldes de Oscar. Tenho pra mim que tudo que é feito com primazia, é coisa de Oscar. Não foi à toa que o prêmio máximo da academia de filmes chama-se Oscar. Só pode ter sido inspirado no padrão de genialidade do nosso bom e velho Oscar Niemeyer.

Eis que de maneira tão apressada você decide partir, você é uma prova cabal daquilo que é bom, realmente dura mesmo muito pouco. De fato, 104 anos passam voando. Nem vou sugerir um descanso, pois você não é afeito a repouso, até porque o paraíso está precisando de uma grande reforma, ainda mais com a proximidade do fim do mundo, você será muito requisitado.

Até um dia desses.

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