Bolo Podre ou livro empoeirado

Bolo Podre ou livro empoeirado

No marketing existe o conceito de sempre tentar aumentar o bolo, ou no caso o mercado. Executivos míopes querem a todo custo ganhar participação, ficam brigando por pontos, percentuais de um bolo que às vezes está apodrecendo e ninguém percebe. Fazem de tudo para aparecer, campanhas milionárias tentando ganhar o consumidor, mas esquecem que tem que semear os futuros clientes. Ou seja, precisam colocar fermento na massa. Isso vale também para o mercado literário, em especial, considerando a formação de novos consumidores. É sabido que o número de leitores aumentou e que a produção de livros também, mas na grande maioria, através da compra do Governo, de livros didáticos para alunos que estão ingressando nas cadeiras escolares. Isso é ótimo, temos que comemorar. Mas ainda assim, porque o brasileiro lê tão pouco? Como escritor e sendo parte integrante desse processo, tenho minhas considerações:

Para quem está chegando aos 40 como eu, ou possuem mais idade, na sua maioria, foram obrigados a lerem para responder uma prova, entregar um resumo depois das férias e ainda de autores ou títulos empurrados goela abaixo. Criou-se um fantasma de que ler era chato. Talvez fosse o desejo de manter a população burra e sob controle.

É evidente que ler autores clássicos é muito importante, eu não seria imbecil de discordar. Mas creio que como um bom vinho, tudo tem a sua hora certa de provar e degustar o verdadeiro sabor. Faça a garotada ler gibi, histórias infantis, mangá japonês, receita de cozinha, horóscopo, o raio que o parta, mas o fundamental é estimular o hábito da leitura. Trazer o conceito de que ler é bacana, é cool.

Hoje a molecada está preguiçosa, só lêem na tela do computador, do celular, mensagens curtíssimas, tai o Twitter estimulando o processo de concisão. Lêem blogs que mais parece uma literatura de pichadores, com conteúdo do dia a dia, das suas rotinas recheadas de futilidade, não se entende quase nada. Textos extremamente pequenos, pois blogs de conteúdo e longo são para os mais velhos. A maioria do nosso futuro público alvo nem escreve direito, com o “internetês”, a torto e a direita, você virou VC e por ai vai.

Mas em minha opinião, o que mais afugenta os novos leitores e talvez seja o pior de todos os males, pois os anteriores são compreendidos e aceitos, já que fazem parte da mudança comportamental, o que mais me incomoda é o fato dos executivos ou profissionais do setor, ai eu incluo os jornalistas, críticos literários, canais de comunicação, os livreiros, os editores e também os escritores, ficarem, desculpe o termo, “punhetando” em cima de uma determinada obra, autor, ou se o contexto que ela foi criada condizia com a sua opinião ou não. Meu amigo, isso é um saco! Ao discutirem em seus blogs, jornais, revistas, entrevistas aos poucos programas que abrem espaço, se a palavra empregada foi a mais correta, se o tom da narrativa foi o ideal, ou se o autor utilizou como base para sua criação a literatura do fulano ou do sicrano, que se comparado ao padrão da escrita do beltrano o livro nem sequer deveria ser impresso. Isso é de uma pequenez tão grande, que mais uma vez retomo ao ponto principal da questão. Ótimos ou promissores escritores morrem asfixiados pelo caminho. Livros que poderiam ter suas tiragens exponencialmente acrescidas estão empoeirando nos depósitos de distribuidores ou sendo reciclados. Estão esquecendo-se de colocar fermento na massa. Deixem os leitores escolherem o que desejam ler. Soltem-se das amarras das grandes editoras que continuam re-imprimindo os grandes clássicos ou livros de escritores que estão surfando a onda mundial. Isso é importante, temos que permitir o acesso a essas obras, mas vejo que assim como na música, é necessário uma mudança de comportamento de quem está nesse mercado. Uma abertura para o novo, para a nossa cultura, o nosso jeito, para aqueles que falam a linguagem desse novo leitor, mas que coloquem uma pitada de cultura na cabeça dessa turma também. Senão logo logo, tudo muda de rumo e o download vai comer solto e nesse mercado vai existir somente dois personagens. O que escreve e o leitor. Tudo de forma digital e direta. Ai quero ver os executivos desse mercado irem mamar nas tetas do governo pedindo verba ou que inclua o seu catálogo nos programas didáticos.

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