David

David

Lembro das aulas de David, como se fosse ontem. Ainda sinto o frescor de suas leituras ou análises de músicas. Nunca esquecerei o dia em que ele leu do seu jeito meio mineiro, meio locutor de rádio, a letra de “Se eu quiser falar com Deus”. Elis Regina já tinha dado a sua contribuição no magnífico álbum Elis de 1980, mas ouvir David recitando a letra foi um espetáculo à parte. Tudo bem que alguns alunos, não conseguiram captar a essência da letra. Talvez por estarem na sala apenas de olho no diploma do colégio, para em seguida fugir o mais rápido possível da escola, da mesma maneira que o diabo foge da cruz. Apesar do cansaço, de estudar a noite, depois de um dia cheio de trabalho, condução lotada e caminhada de dois kilômetros de subida para chegar à escola, a compensação vinha com as aulas de David. Sou sincero, nunca gostei muito das denominações dos particípios, dos pronomes oblíquos, reto, (para mim parecia aula de biologia), conjunções adnominais, adverbiais, concordância nominal e tantas outras denominações. Pra mim era como tentar narrar um ato sexual. “Olha minha querida, por gentileza, gostaria de ver suas pernas entreabertas, pois agora eu vou oscular os seus grandes lábios, posteriormente irei penetrá-la, de forma que a melhor maneira de fazê-lo seria se você estivesse num ângulo reto, posicionando o seu dorso longitudinalmente ao meu membro” sinceramente não dá! Minha paixão pela literatura, assim como a música, cinema, teatro vai além de tentar avaliar se a frase dita, foi um verbo transitivo ou intransitivo, se está no pretérito imperfeito ou o mais que perfeito. Voltando ao professor David, ele transmitia justamente essa paixão pela palavra. Nua e crua. Foi revisor de grandes escritores. Pacientemente leu e revisou o original do meu primeiro romance Os filhos bastardos do presidente, que guardo carinhosamente até hoje em casa. (Pretendo publicá-lo em 2010). Mas o que mais me faz lembrar, com carinho e pesar foi quando soube que todo o amor que ele colocava nas palavras não pôde ser concretizado plenamente em sua família. Perdeu a esposa no parto, mas não perdeu a candura, assimilou o golpe e segue firme a sua missão. Tentei de alguma maneira mostrar a minha admiração e apoiá-lo em seu momento tão particular. Escrevi a seguinte poesia.

POEMA PARA NINAR

Durma menino,
Você não tem motivos pra chorar.
Sua mãe o deixou?
Nós somos fortes,
Nós podemos suportar.
Você lembra o sorriso dela?
Dos carinhos…
E quando cantava para você dormir?
Agora menino seja forte,
Não posso cantar para você,
Minha voz é muito rouca,
Ela não sai,
Está engasgada,
O soluço não deixa.
Filho,
Por que ela nos deixou?

“PARA DAVID”

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