Professor de português

Um mês de convívio, ou mais precisamente quatro aulas. Só lembro-me do seu primeiro nome José. Deveria dar aulas de português. Aliás, vi muitos alunos reclamando que ele falava mais da vida, de experiências adquiridas do que propriamente de gramática, literatura ou técnicas de redação. José nunca expôs claramente, mas era nítido, pelo menos para mim, que ele sabia que estava no final de sua jornada. Magro, olhos fundos, tipicamente de quem era soro positivo. Numa época em que a doença vinha com força total e sem nenhuma piedade. Nunca me interessou saber se ele era homossexual ou de que maneira foi infectado, via apoiado na mesa um ser humano com pressa de viver e transmitir os atalhos da vida a quem quisesse prestar atenção. Na sua última aula ele citou a música Beatriz de Chico Buarque, pra mim certamente figura na lista das mais lindas já produzidas, não pelo Chico, mas pela raça humana. Ele leu algumas frases e destacou empostando a voz enfraquecida, que a vida é sempre por um triz. Entendi o que ele queria dizer, estava caminhando com dificuldade e aproximando-se do tal triz. Absorvi a sua mensagem e vivo cada instante, procurando ser feliz. Soube de sua morte na semana seguinte, escrevi essa poesia, e quando coloquei o ponto final, conclui que perdi um professor, porém ganhei um ídolo.

JOSÉ

É José,

Realmente a vida é por um triz,

Nós estamos aqui,

Apenas querendo ser feliz,

Lutando, ensinando e sendo vaiado.

É José,

Você entra em cena toda noite,

Transmite sua essência,

E a vida passa por cima de ti.

Será injustiça?

Você corre e ela te atropela.

É a vida José,

Nós estamos sempre pedindo bis.

Copyright © Ivan Lacerda

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